Glicinato Férrico x Sulfato Ferroso

Qual a vantagem de usar Glicinato férrico (Neutrofer®, Keferm®, Novofer Ped®, etc.) em relação ao sulfato ferroso?

As preparações com ferro são utilizadas para tratamento ou prevenção da anemia por deficiência de ferro, a qual é considerada a causa nutricional mais comum de anemia. A falta de ferro pode ser o resultado de uma ingestão inadequada na alimentação, problemas de absorção, perda de sangue ou por um aumento na necessidade de ferro, como ocorre durante a gravidez. 

Vale destacar que o uso de ferro para prevenção da anemia deve ser reservado a pacientes de alto risco, como mulheres grávidas ou que tenham perdas excessivas de sangue durante o período menstrual, crianças em fase de crescimento que tenham dieta abaixo do padrão e adultos com uma causa reconhecida de perda crônica de sangue. Para crianças que utilizam rotineiramente fórmulas enriquecidas com ferro, o uso de suplementos adicionais não é recomendado.

Uma vez iniciado o tratamento com o ferro, a resposta será influenciada por diversos fatores, incluindo a severidade da anemia, a habilidade do paciente tolerar e absorver o ferro e ainda a existência de outros problemas de saúde complicadores. 

Desta forma, a quantidade efetivamente absorvida pode variar bastante, sendo controlada principalmente pelo estoque de ferro no corpo, ou seja, quando as reservas estão baixas, a absorção é maior. Estima-se que a absorção do ferro ingerido junto com as refeições é entre metade e um terço da absorção em jejum. Isso ocorre porque outras substâncias como fosfatos, fitatos e tanatos presentes nos alimentos podem se ligar ao ferro e diminuir sua absorção. Portanto, recomenda-se administrar 1 hora antes ou 2 horas após a refeição. Os medicamentos antiácidos também reduzem a absorção de ferro quando utilizados simultaneamente. Assim deve-se administrar o ferro 2 horas antes ou 4 horas após o uso de antiácidos.

Em geral, as fezes de pacientes em tratamento com ferro podem ficar escuras. Apesar de não ter nenhum significado clínico por si só, esta alteração pode mascarar o diagnóstico de perdas de sangue do trato gastrointestinal.

Além disso, as reações ao uso de preparações de ferro incluem náuseas, desconforto gástrico, cólicas, diarreia ou constipação. Como estes efeitos estão relacionados à dose, pode-se reduzir os riscos de ocorrência dos mesmos iniciando o tratamento com uma dose baixa e aumentando gradativamente até o nível desejado. Um estudo realizado com idosos indicou que até mesmo pequenas doses podem ser tão eficientes como doses maiores de ferro.

Outras alternativas para minimizar a ocorrência de efeitos adversos seriam utilizar o ferro na hora de dormir, imediatamente depois ou junto com as refeições. No caso de formulações líquidas, sugere-se colocar a solução de ferro na língua com um conta-gotas para evitar o aparecimento de manchas transitórias nos dentes. 

O ferro está disponível em diversos produtos no mercado. Em relação às diferenças de efeitos adversos de acordo com a formulação, considera-se que as reações estão relacionadas à quantidade de ferro elementar liberada e não tem necessariamente relação com a formulação empregada. Assim, a menor ocorrência de reações adversas para determinadas preparações pode apenas refletir uma menor liberação de ferro destas formulações. 

Atualmente, o tratamento de escolha para tratamento e prevenção da anemia por deficiência de ferro é o sulfato ferroso. Em geral, considera-se que os sais ferrosos, como o sulfato ferroso, tem uma absorção três vezes superior aos sais férricos. Em estudo comparativo de preparações de ferro na forma de sal férrico versus ferro ferroso no tratamento de anemia por deficiência de ferro em mulheres, o sal ferroso foi mais eficaz e econômico que o férrico. 

Portanto, a literatura destaca que variações em uma forma particular de sal tem um efeito relativamente pequeno na absorção, ou seja, o sulfato, fumarato, succinato, gluconato, aspartato e outros sais ferrosos são absorvidos em uma mesma extensão. Logo, apesar da diversidade de preparações de ferro disponíveis, não há evidências que estas apresentem vantagens reais em relação ao sulfato ferroso.

Apesar de não existirem evidências de superioridade de eficácia dentre as preparações para reposição de ferro, há uma diferença importante em termos financeiros. De acordo com o boletim Saúde e Economia da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a diferença dos custos de tratamento chegava a 1329% em 2013. Enquanto o sulfato ferroso apresentava o menor custo, o glicinato férrico foi a preparação mais cara dentre os produtos avaliados. Desta forma, o custo também é um ponto a favor do uso do sulfato ferroso.

Os quelatos de ferro com glicina, como o glicinato férrico, foram desenvolvidos para serem utilizados como fortificantes de alimentos e agentes terapêuticos.  Em relação ao tratamento e prevenção da anemia por deficiência de ferro, não encontramos estudos na literatura comparando a eficácia destes agentes com o sulfato ferroso. Portanto, não há evidências que o glicinato férrico tenha alguma vantagem em termos de eficácia e segurança em relação ao sulfato ferroso.

Por fim, é importante ressaltar que além de ser reconhecidamente eficaz, o sulfato ferroso também é um medicamento acessível para a população, visto que este faz parte da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais e é disponibilizado de forma gratuita pelo Programa Nacional de Suplementação de Ferro. Além disso, também pode ser adquirido pelo Programa Farmácia Popular.

Referências:

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