quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Quem precisa de um omeprazol?

O nome é bem popular nos consultórios e nas conversas informais. Há os que já se preparam para as festas com um omeprazol para evitar a azia depois de um exagero nas comidas. Há também os que nem mesmo se lembram de quando começaram a usar e acreditam que já não podem mais viver sem ele.

Sem sombra de dúvidas o omeprazol revolucionou o tratamento de problemas de estômago relacionados à produção de ácido. É um medicamento importantíssimo presente na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) (1). Entretanto, também é evidente o atual uso indiscriminado deste medicamento.

Em muitas prescrições, o omeprazol é adicionado com o objetivo de evitar possíveis danos de outros medicamentos ao estômago. Algumas pessoas até utilizam pelo motivo correto, porém acabam prolongando desnecessariamente  o uso do medicamento. 

Então, quem realmente precisa de um omeprazol? Quais são os riscos de seu uso indevido?

O omeprazol  inibe a produção de ácido do estômago e está indicado para o tratamento da doença chamada refluxo gastroesofágico (quando o conteúdo do estômago passa para o esôfago), esofagite erosiva associada com doença do refluxo, úlceras, em associação com antibióticos para o tratamento contra Helicobacter pylori e em problemas em que a produção de ácido pelo estômago é excessiva  como a síndrome de Zollinger-Ellison, hipergastrinemia, mastocitose sistêmica e adenoma endócrino múltiplo. A duração do tratamento dependerá de cada condição (1).

Alguns medicamentos como anti-inflamatórios, corticoides, anticoagulantes e antidepressivos, podem causar problemas no estômago e portanto, pode ser necessário utilizar em conjunto com o omeprazol visando a proteção do estômago (gastroproteção). Entretanto, esta aplicação só é válida em situações específicas, como em pessoas com histórico de úlceras ou sangramentos gastro-intestinais, em uso de mais de um medicamento com potencial de dano ao estômago ou em idosos (2). Portanto, se o paciente não apresenta estes fatores de risco, o uso do omeprazol não é recomendado.

A gastroproteção deve ser avaliada cuidadosamente pelo médico, que deve considerar não só os benefícios do tratamento como também o risco de efeitos adversos, interações com outros medicamentos e a dificuldade do paciente incluir mais um medicamento em sua rotina. Esta avaliação deve ser feita de forma individualizada pois, dependendo da situação clínica, ao invés de adicionar o omeprazol, a melhor solução pode ser modificar o tratamento com potencial de dano ao estômago (2). 

Em geral, o omeprazol é considerado um medicamento seguro. As reações adversas mais comuns são dor de cabeça e abdominal, diarréia, gases, náuseas e vômitos. Entretanto, com o uso prolongado, existe o risco de outros problemas como, osteoporose e maior risco de fraturas, pneumonia, infecções intestinais, problemas renais (nefrite intersticial aguda), dificuldade de absorção de nutrientes, como vitamina B12 e magnésio, além do risco de interações com outros medicamentos (2). Portanto, é primordial que todos que utilizam omeprazol por períodos prolongados façam visitas regulares ao médico e estejam atentos a qualquer efeito adverso do tratamento.

Em termos de interações, existe o potencial do omeprazol alterar o efeito de medicamentos como os benzodiazepínicos (por exemplo, diazepam e clobazam), além de carbamazepina, usada no tratamento da epilepsia; do inibidor da agregação de plaquetas clopidogrel; da digoxina, que trata a insuficiência cardíaca; do imunossupressor micofenolato; do anticoagulante varfarina; de medicamentos usados no tratamento do HIV, como atazanavir, indinavir e nelfinavir; de antifúngicos como cetoconazol, dentre outros (3). Desta forma, é essencial que o paciente informe ao médico todos os medicamentos que utiliza antes do início do tratamento com o omeprazol, inclusive os fitoterápicos pois sabe-se que a erva de São João (Hypericum perforatum) e o Ginkgo biloba, por exemplo, podem reduzir seu efeito (1).

Além disso, o omeprazol só deve ser utilizado em pessoas com risco de câncer de estômago após avaliação por exame de endoscopia pois o medicamento pode mascarar os sintomas do câncer, prejudicando o diagnóstico (3).

Para as pessoas que realmente necessitam de omeprazol algumas dicas são importantes (1):

-  ingerir as cápsulas com o estômago vazio, 30 minutos antes das refeições, preferencialmente antes do café da manhã)
-  ingerir as cápsulas sem abrí-las
- pessoas com dificuldade em engolir podem abrir as cápsulas e misturar os grânulos com uma bebida ácida, como suco de laranja. Entretanto, os grânulos não devem ser mastigados nem misturados com leite
- o medicamento deve ser armazenado à temperatura ambiente, entre 15-30 ºC

O omeprazol também não deve ser utilizado para o alívio imediato da azia pois pode demorar de 1 a 4 dias para atingir o efeito máximo. É importante ressaltar que pessoas com problemas de má-digestão, antes de apelar para os medicamentos, podem e devem priorizar alterações no estilo de vida como reduzir o consumo de álcool, alimentos gordurosos, parar de fumar, reduzir o peso, elevar a cabeceira da cama e sempre que possível evitar medicamentos que afetam o estômago (1).

Enfim, por mais seguro um medicamento pareça, não podemos esquecer que não existe nenhum livre de riscos (desconfie sempre que ouvir algo contrário). Portanto, é essencial que médicos e pacientes utilizem o medicamento de forma racional e isto só ocorre quando os pacientes recebem medicamentos apropriados para suas condições, em doses adequadas às suas necessidades individuais, por um período adequado e ao menor custo para si e para a comunidade (4).

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Referências:
1. SECRETARIA DE CIÊNCIA, T. E I. E. Formulário terapêutico nacional 2010: RENAME 2010. Brasília: Ministerio da Saude, 2011.
2. VALLÈS FERNÁNDEZ, R.; FRANZI SISÓ, A.; FERRO RIVERA, J. J. Condiciones clínicas y terapéuticas que requieren gastroprotección. FMC. Formación Médica Continuada en Atención Primaria, v. 21, n. 09, p. 528–533, 1 nov. 2014.
3. Omeprazol. In: Martindale [database on the Internet]. Ann Arbor (MI): Truven Health Analytics; 2014 [. Disponível em: www.micromedexsolutions.com (acesso em 11/11/2014).
4. WHO | Rational use of medicines. Disponível em: <http://www.who.int/medicines/areas/rational_use/en/>. Acesso em: 6 nov. 2014.

Autora: Fernanda Lacerda da Silva Machado (Farmacêutica)
RevisãoDanielle Maria de Souza Serio dos Santos e Juliana Givisiéz Valente




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