sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Dengue: a nova vacina é a solução?

por Fernanda Lacerda da S. Machado
 
A dengue é a doença viral, transmitida por inseto, de maior incidência no mundo representando um grave problema de saúde para aproximadamente 120 países (1). Estima-se que 390 milhões de pessoas sejam infectadas pelo vírus anualmente (2). 

Devido à relevância do problema, a Organização Mundial da Saúde estabeleceu como meta a redução da mortalidade por dengue em 50% até 2020. Entretanto, para atingir esta redução, diversas organizações, indústrias e governos têm concentrado esforços na busca de uma vacina, incluindo a Fundação Bill e Melinda Gates, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (3).

O principal desafio no desenvolvimento da vacina da dengue é garantir que esta irá conferir proteção contra os quatro subtipos de vírus. Mas por que este cuidado? Você já deve saber que a chance de alguém desenvolver as formas mais graves da doença aumenta se ela já teve dengue anteriormente. Portanto, se uma vacina proteger somente contra o subtipo 2, seria possível a infecção pelo subtipo 3, por exemplo. E neste caso, o risco de desenvolver a dengue hemorrágica seria maior (4). 

Nesta corrida, a primeira vacina para dengue a chegar ao mercado é a DengvaxiaÒ, desenvolvida pela empresa francesa Sanofi Pasteur, com registro aprovado no México e recentemente no Brasil. A vacina está indicada para prevenção da dengue em pessoas com idade entre 9 e 45 anos, residentes em áreas endêmicas, ou seja, em locais com um número elevado de casos da doença.  Cerca de cinco outras vacinas estão em fase final de pesquisa, inclusive uma delas desenvolvida pelo Instituto Butantan (5).

De forma simplificada, a DengvaxiaÒ é uma combinação de um tipo de vírus atenuado da febre amarela (incapaz de provocar a doença) que foi modificado para produzir fragmentos dos vírus de dengue. A vacina deve ser administrada em 3 doses, sendo a segunda e terceira com intervalo de 6 e 12 meses da primeira.

Os estudos clínicos de fase III, que representam a última etapa de testes antes da comercialização do produto, foram realizados em países do Sudeste Asiático e da América do Sul. Na comparação dos resultados de 7 estudos, incluindo 6.678 pacientes de 2 a 45 anos de idade, observou-se que os pacientes que receberam a vacina desenvolveram anticorpos contra os quatro subtipos de dengue. Entretanto, apesar dos anticorpos produzidos, a eficácia da vacina na prevenção de infecções sintomáticas de dengue foi estimada em 59% (1). 

Se você achou estranho, é realmente intrigante: houve produção de anticorpos, mas ainda assim, algumas pessoas apresentaram sintomas de dengue posteriormente.

Comparando os resultados por subtipo de vírus, a eficácia foi inferior para o subtipo 2 (1). Em contrapartida, pacientes que já tiveram contato anterior à vacina com vírus da mesma família do vírus da dengue (família Flaviviridae) apresentaram melhor resposta (2). Em relação aos efeitos adversos, não foram observadas diferenças significativas entre o grupo de pacientes tratados com a vacina e o grupo controle (1). 

E com relação às crianças? Porque esta nova vacina só está indicada para maiores de 9 anos? Um dos estudos, realizado em crianças com idades entre 2 e 16 anos, observou um número maior de internações por dengue no grupo que recebeu a vacina e que tinha idade inferior a 9 anos (6). Desta forma, a vacina não está indicada para esta faixa etária. Diferentemente das crianças, ainda não foram publicados estudos com pessoas acima de 45 anos. 


Portanto, frente aos dados disponíveis no momento, fica evidente que apesar dos avanços, ainda há dúvidas que precisam ser respondidas sobre a nova vacina, com relação a sua eficácia em longo prazo, segurança e o balanço custo-efetividade. A dengue é uma doença complexa e diante do panorama mundial, o avanço das pesquisas no tema é crucial para o desenvolvimento de novas vacinas.

Assim sendo, até o momento, a melhor forma de controle e prevenção da transmissão do vírus da dengue é através do combate ao mosquito vetor, o Aedes aegypti. Faça sua parte!


Referências:
1. da Costa VG, Marques-Silva AC, Floriano VG, Moreli ML. Safety, immunogenicity and efficacy of a recombinant tetravalent dengue vaccine: A meta-analysis of randomized trials. Vaccine. setembro de 2014;32(39):4885–92. 
2. Flipse J, Smit JM. The Complexity of a Dengue Vaccine: A Review of the Human Antibody Response. Simmons CP, organizador. PLOS Neglected Tropical Diseases. 11 de junho de 2015;9(6):e0003749. 
3. Thomas SJ. Preventing dengue—is the possibility now a reality? New England Journal of Medicine. 2015;372(2):172–3. 
4. Ramakrishnan L, Radhakrishna Pillai M, Nair RR. Dengue Vaccine Development: Strategies and Challenges. Viral Immunology. março de 2015;28(2):76–84. 
5. World Health Organization. Questions and Answers on Dengue Vaccines [Internet]. WHO. [citado 2 de março de 2016]. Recuperado de: http://www.who.int/immunization/research/development/dengue_q_and_a/en/
6. Hadinegoro SR, Arredondo-García JL, Capeding MR, Deseda C, Chotpitayasunondh T, Dietze R, et al. Efficacy and Long-Term Safety of a Dengue Vaccine in Regions of Endemic Disease. New England Journal of Medicine. 24 de setembro de 2015;373(13):1195–206. 

RevisãoDanielle Martins Ventura, Danielle Maria de Souza Sério dos Santos, Juliana Givisiéz Valente e Thaisa Amorim Nogueira.

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